Regenus' Domain

sexta-feira, setembro 16, 2005

Chapeuzinho Vermelho

Morri de rir com esse texto de Millôr!

Renovação do Maravilhoso
Estilo romântico (à maneira de Franklin de Oliveira) – Millôr 1949



Sentindo em seu sangue o tumultuar ardente dos ginetes impávidos de sua configuração cósmica, estrelas maduras de sua juventude, Chapeuzinho Vermelho tentava atravessar a Floresta agreste onde uma rosa é uma rosa é uma rosa é uma rosa, onde as árvores eram ao mesmo tempo como frutos de amor da terra pelo vento e pelo sol e uma obstinação da natureza contra o homem, quando viu surgir à sua frente a figura contrastante e terrificadora do Lobo Mau, que lhe perguntou aonde se dirigia.
-"Ah"- disse o Lobo – "que maravilha és e que maravilha que fosses minha namorada. Porque o maravilhoso, quando se encontra o Ser que se Ama, a Enamorada distante, é os dois ficarem calados, nada dizendo, ela sabendo que naquele silêncio está sendo mais amada que nunca, tornando-se mais linda em seu quieto silêncio."
E, assim, envolvida pelo som dessa voz, Chapeuzinho Vermelho prossegue seu caminho, chega à casa da sua avó e, na surpresa de encontrá-la acordada, pergunta por quê. Ah, o porquê da insônia. Neurastenia Noturna. Agonia do Cérebro. "Minha avó"- pergunta Chapeuzinho – "por que tens orelhas tão grandes?" "Ah, filha, isso é para ouvir o ouvido e o som do teu som. Quando tiveres ido há muito, inda te sentirei junto a mim." "Vó, e por que esses olhos tão grandes?" "Ah, filha, é para a contemplação da Beleza, a Beleza de todos os dias, a luz das estrelas que vivemos perdendo."
-"Vó, e para que esses dentes tão grandes?"- "Ah, filha, acredito no Amor, pássaros, ondas, céus, palavras claras e também confusas. Acredito que o amor é um manjar do céu, que a criatura amada é o único alimento do coração, e por isso tenho esses dentes tão grandes: porque és o meu amor."
Quando ele e ela se tornaram uma só pessoa, então a vida começou e não haverá mais Fim, pois não pode haver Fim quando duas pessoas estão juntas, uma dentro da outra.
desenho: Érrico Bianco
Regenus Pax 9:31 AM | 0 introspectos |

quinta-feira, setembro 08, 2005

Percepção



-"Gostaria de poder expurgar estes sentimentos ruins que me tomam de tempos em tempos."
-"Mas não há nada de errado com os sentimentos..."
-"Depende de quando eles afloram", respondi, "e não acho que no momento de meu descanso seja a hora mais apropriada."
-"Tem razão...", concordou meu amigo. "Diz-me, então, o que te tocou a mente"

Seu pedido foi um tanto estranho. Sei que meu amigo já conhece todos os meus pensamentos. Mas não ponderei em demasia, preferi encarar apenas como uma forma de manter o fluxo do discurso. Ao memso tempo, senti uma confusão se formar em minha boca. Tomadas de curiosidade, algumas palavras nervosas me escaparam.

"-Por que me pergunta o que já conhece?" Hunf! palavras impacientes!, pensei.

Meu amigo sorriu. A tranqüilidade intocada. A resposta correu o tempo como uma brisa, tocando de leve estas palavras que se dissolveram e, qual poeira, espalharam-se pelo infinito.

-"Porque gosto de te ouvir falar"
-"Sendo assim, atenderei ao seu pedido, embora doloso seja reavivar tais sentimentos. Recentemente minha mãe passou por uma cirurgia para restaurar a arcada dentária que estava desgastada e descalcificada. O procedimento é bem traumático pois tira uma parte do osso do queixo e implanta na parte danificada. Minha mãe ainda está se recuperando, uma semana de inchaço, incômodo e dores." Nesta hora, um aperto me pega o estômago. Na verdade, não sei dizer qual o local, sei que é naquela região, mas parece mais interno e, de tanto, fora de mim. "Agora ela está com uma reação alérgica, sem causa aparente. A medicação para a alergia não fez efeito. É um sentimento muito ruim nada poder fazer." Meus olhos assistem a construção de uma imagem no ar. É a imagem de minha mãe como está agora. Engraçado, mas a imagem parece viva. Sinto que poderia tocá-la se quisesse. A nitidez é perfeita, as cores, tão vivas; consigo sentir o perfume e o calor que emanam da imagem.
-"Sim, continue", mostrou interesse, meu amigo.
-"Os anos passam dolorosamente para todos, é a verdade suprema. Ainda assim, parece que esqueço disso e isolo seu ser do restante do universo. Que tolo!", reconheço. Seu rosto não tem mais a firmeza da juventude, apenas as marcas da vida; a lassidão espelhada em seus traços... a imagem alí, denunciando. "Nessa hora que imagino o que será da pessoa que, tão tenramente, se anulou para manter o meu bem-estar..." As palavras, agora, não vem ao meu socorro. Que covardes! Forço para que saiam, arranhando minha garganta, tamanho o aperto que se forma.
-"Respire", aconselhou meu amigo.
-"Está bem", respirei fundo. O ar renovado expulsa o ar pesado e desfaz o nó de minha garganta. "Sinto-me culpado por não ter percebido isso antes. É uma dívida que nunca poderei pagar... Sinto me culpado também por ter perdido a confiança nela, depois de uns desentendimentos há quase 2 anos..."
-"Tua mãe já te cobraste algo?"
-"Não, e acho que nunca faria. É de seu gênio tentar fazer as coisas por si só."
-"Deste teu afeto?"

Fiquei totalmente desarmado com a pergunta. Há quanto tempo, verdadeiramente, não a abraçava? Quantas palavras não-proferidas, além daquelas de acusação e revolta? Quantos os dias em que a fria solidão poderia ser dispersada? Responder era desnecessário. Meu amigo tinha todas as respostas. Seu rosto sempre tranqüilo.

-"Não achas que deveria se desarmar?
-"Acho que sim..."

Regenus Pax 12:21 PM | 2 introspectos |

terça-feira, setembro 06, 2005

24 horas



Bom, tá faltando tempo para escrever alguma coisa interessante aqui nesse blog (q ninguém visita hahahaha). 24 horas não são mais suficientes no meu dia. Depois que um pessoal saiu aqui da minha seção, sobrou trabalho e faltou tempo... Tenho até umas idéias interessantes pra colocar aqui, mas não acho as condições pra concretizar. Sabe como é, eu sempre fui muito devagar pra escrever.

Nos meus tempo de estudante (será que esse tempo acaba alguma hora?), perdia grande parte do tempo que eu tinha pra fazer uma pesquisa ou redação pensando em como começar. Não sei como tinha um ou outro doido que gostava do que eu escrevia.

Outra coisa que pega muito é o sentimento de que qualquer coisa que eu escreva vai soar idiota, comum, simplório, irrelevante. É muito difícil escrever assim, intimida muito as palavras. Essas são muito sensíveis, não tem como atuarem se já estão mortas antes mesmo de ganharem matéria...

É isso.

R.P.
Regenus Pax 2:27 PM | 0 introspectos |

quinta-feira, setembro 01, 2005

Sonhos


Novamente ele se aproxima. Suas visitas tem se tornado freqüentes de um tempo para cá. Sempre a mesma voz suave, quase etérea. Não se sabe que poder tem, mas é sempre recebido com calma, e, ao começar a falar, é impossível interrompê-lo. Já me acostumei com suas visitas, atrevo-me a dizer que me distraio com nossas conversas. É meu amigo para todos os momentos.

-"Que fazes aí?", ele pergunta.
-"Eu não sei, quando dei por mim estava aqui", respondi.
-"Você não deveria estar em outro lugar?", sua voz sempre suave.
-"Sim, realmente. Poderia estar em qualquer lugar agora".

Não sei porque tento dar respostas evazivas. Tentar desviar de suas perguntas só me levará a mais perguntas. Olho para seu semblante, nada mudou, os mesmos traços plácidos continuam a delinear sua face.

-"Certamente. Podemos estar em qualquer lugar, embora fisicamente os limites são grandes. Lembra-se de seus sonhos?" diz-me.
-"Às vezes sim, é difícil retê-los depois que desperto. O máximo que consigo é como uma coceira na memória, imagens que são barradas, alguns sons esboçados, nada mais."
-"É uma pena! Saberíamos mais sobre nós mesmos se conseguíssemos retê-los."
-"Acho que sim. Porém, não é isso que me incomoda. Não esses sonhos..."
-"Sinto em sua voz o pesar que isso causa."
-"Sim..."
-"Onde perdeste teus sonhos?"
-"Como sabe que é isso que me agustia?"

Olho para ele. Em seu rosto desponta um leve sorriso. Seu olhar tranqüilo sinaliza confiança, não há porque esconder meus segredos. Até porque sinto que já conhece tudo sobre mim. Abaixo a cabeça, como que procurando as palavras ou a coragem para proferí-las. Reparo que estou descalço. Abaixo de mim, dois leões dourados caminham por uma planície. Não há presas, apenas caminham. Sim, as palavras. Começam a se amontoar na boca, sentindo seu volume e o sabor amargo do que trazem consigo. Apenas duas são escolhidas:

-"Não sei..."
Regenus Pax 4:27 PM | 0 introspectos |