Regenus' Domain

quinta-feira, setembro 08, 2005

Percepção



-"Gostaria de poder expurgar estes sentimentos ruins que me tomam de tempos em tempos."
-"Mas não há nada de errado com os sentimentos..."
-"Depende de quando eles afloram", respondi, "e não acho que no momento de meu descanso seja a hora mais apropriada."
-"Tem razão...", concordou meu amigo. "Diz-me, então, o que te tocou a mente"

Seu pedido foi um tanto estranho. Sei que meu amigo já conhece todos os meus pensamentos. Mas não ponderei em demasia, preferi encarar apenas como uma forma de manter o fluxo do discurso. Ao memso tempo, senti uma confusão se formar em minha boca. Tomadas de curiosidade, algumas palavras nervosas me escaparam.

"-Por que me pergunta o que já conhece?" Hunf! palavras impacientes!, pensei.

Meu amigo sorriu. A tranqüilidade intocada. A resposta correu o tempo como uma brisa, tocando de leve estas palavras que se dissolveram e, qual poeira, espalharam-se pelo infinito.

-"Porque gosto de te ouvir falar"
-"Sendo assim, atenderei ao seu pedido, embora doloso seja reavivar tais sentimentos. Recentemente minha mãe passou por uma cirurgia para restaurar a arcada dentária que estava desgastada e descalcificada. O procedimento é bem traumático pois tira uma parte do osso do queixo e implanta na parte danificada. Minha mãe ainda está se recuperando, uma semana de inchaço, incômodo e dores." Nesta hora, um aperto me pega o estômago. Na verdade, não sei dizer qual o local, sei que é naquela região, mas parece mais interno e, de tanto, fora de mim. "Agora ela está com uma reação alérgica, sem causa aparente. A medicação para a alergia não fez efeito. É um sentimento muito ruim nada poder fazer." Meus olhos assistem a construção de uma imagem no ar. É a imagem de minha mãe como está agora. Engraçado, mas a imagem parece viva. Sinto que poderia tocá-la se quisesse. A nitidez é perfeita, as cores, tão vivas; consigo sentir o perfume e o calor que emanam da imagem.
-"Sim, continue", mostrou interesse, meu amigo.
-"Os anos passam dolorosamente para todos, é a verdade suprema. Ainda assim, parece que esqueço disso e isolo seu ser do restante do universo. Que tolo!", reconheço. Seu rosto não tem mais a firmeza da juventude, apenas as marcas da vida; a lassidão espelhada em seus traços... a imagem alí, denunciando. "Nessa hora que imagino o que será da pessoa que, tão tenramente, se anulou para manter o meu bem-estar..." As palavras, agora, não vem ao meu socorro. Que covardes! Forço para que saiam, arranhando minha garganta, tamanho o aperto que se forma.
-"Respire", aconselhou meu amigo.
-"Está bem", respirei fundo. O ar renovado expulsa o ar pesado e desfaz o nó de minha garganta. "Sinto-me culpado por não ter percebido isso antes. É uma dívida que nunca poderei pagar... Sinto me culpado também por ter perdido a confiança nela, depois de uns desentendimentos há quase 2 anos..."
-"Tua mãe já te cobraste algo?"
-"Não, e acho que nunca faria. É de seu gênio tentar fazer as coisas por si só."
-"Deste teu afeto?"

Fiquei totalmente desarmado com a pergunta. Há quanto tempo, verdadeiramente, não a abraçava? Quantas palavras não-proferidas, além daquelas de acusação e revolta? Quantos os dias em que a fria solidão poderia ser dispersada? Responder era desnecessário. Meu amigo tinha todas as respostas. Seu rosto sempre tranqüilo.

-"Não achas que deveria se desarmar?
-"Acho que sim..."

Regenus Pax 12:21 PM

2 Comments:

oi Bobby saudadessssssssssss, boa sorte na pós graduação, tem mais é que tentar sim, se atiraaaaa. Bejooooooo
Rebs PS: agora que encontrei isso aqui virei sempre.
Hehehehe Isso aqui tava meio parado, mas vou revitalizá-lo só pra vc vir aqui mais vezes ;) Bjão!!

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