quinta-feira, setembro 01, 2005
Sonhos

Novamente ele se aproxima. Suas visitas tem se tornado freqüentes de um tempo para cá. Sempre a mesma voz suave, quase etérea. Não se sabe que poder tem, mas é sempre recebido com calma, e, ao começar a falar, é impossível interrompê-lo. Já me acostumei com suas visitas, atrevo-me a dizer que me distraio com nossas conversas. É meu amigo para todos os momentos.
-"Que fazes aí?", ele pergunta.
-"Eu não sei, quando dei por mim estava aqui", respondi.
-"Você não deveria estar em outro lugar?", sua voz sempre suave.
-"Sim, realmente. Poderia estar em qualquer lugar agora".
Não sei porque tento dar respostas evazivas. Tentar desviar de suas perguntas só me levará a mais perguntas. Olho para seu semblante, nada mudou, os mesmos traços plácidos continuam a delinear sua face.
-"Certamente. Podemos estar em qualquer lugar, embora fisicamente os limites são grandes. Lembra-se de seus sonhos?" diz-me.
-"Às vezes sim, é difícil retê-los depois que desperto. O máximo que consigo é como uma coceira na memória, imagens que são barradas, alguns sons esboçados, nada mais."
-"É uma pena! Saberíamos mais sobre nós mesmos se conseguíssemos retê-los."
-"Acho que sim. Porém, não é isso que me incomoda. Não esses sonhos..."
-"Sinto em sua voz o pesar que isso causa."
-"Sim..."
-"Onde perdeste teus sonhos?"
-"Como sabe que é isso que me agustia?"
Olho para ele. Em seu rosto desponta um leve sorriso. Seu olhar tranqüilo sinaliza confiança, não há porque esconder meus segredos. Até porque sinto que já conhece tudo sobre mim. Abaixo a cabeça, como que procurando as palavras ou a coragem para proferí-las. Reparo que estou descalço. Abaixo de mim, dois leões dourados caminham por uma planície. Não há presas, apenas caminham. Sim, as palavras. Começam a se amontoar na boca, sentindo seu volume e o sabor amargo do que trazem consigo. Apenas duas são escolhidas:
-"Não sei..."
Regenus Pax 4:27 PM













