quarta-feira, dezembro 19, 2007
Reflexões de uma Quarta-Feira Cinzenta
E outro dia se inicia. Como se iniciarão outras tantas centenas de dias. E, após um hiato, sempre vem a tempestade. Hora de vomitar mais algumas coisas que andam me fazendo mal. Escrever é terapêutico. Coloca-se no papel tudo aquilo que se desejar. Afinal de contas, papel aceita QUALQUER coisa. Das metáforas mais belas aos dejetos da fisiologia de um ser vivo. Nesse ínterim, pendendo para este último, estão muitas das publicações que vejo hoje em dia nas livrarias. A moda agora é publicar livros com capas coloridas, quase obras de arte. Outras tantas têm fotos de filhotes de seres humanos (ou desumanos) e de outros animais cujo mecanismo de defesa natural nada é além de sua “fofura”. Gosto de filhotes de animais. De humanos, nem tanto. Voltando ao tema, há também muitos livros com mulheres e homens de turbantes, que estavam ali, na mesma vidinha há séculos até que algum escritor piedoso resolveu tirá-los da total ignorância mundial. Quer dizer, sempre foram lembrados como “o lado do planeta que tem mais petróleo”. Seu modo de vida e de ver o mundo nunca foram considerados pelo restante da população mundial que não tem um olhar “estratégico”. A moda hoje é ser “estratégico”, mas isso já é outra consideração. Não posso esquecer dos livros que trazem impresso na capa a foto da ilustre pessoa que os escreveu. Sempre aquele tipo americano: homens gordos de óculos e roupa social; mulheres louras de cabelo curto repicado, no melhor estilo “piu-piu”, também de roupa de escritório e sorriso amarelo na cara. Uns e outros tentando vender a forma de se ganhar (mais) dinheiro. Quer saber qual é O Segredo? Não posso contar porque ele deixaria de sê-lo.
Enfim, somos seres predominantemente visuais. Muitas vezes precisamos “ver para crer”. Escrever é uma forma de tornar possível ver o que se pensa, moldado nas amarras da língua. Escreve-se e se tem estampada a sabedoria ou a idiotice de um ser humano. Neste momento em que escrevo, perco a posse de meus pensamentos, que se tornam de qualquer um, o que facilita analisar o que se pensa. Quase sempre se é mais crítico com o que é de outrem.
Pausa para sarcasmo: Quem disse ao Microsoft Word que ele sabe gramática do português? Vai que alguém começa a acreditar nele?
E um novo dia se inicia. Já escrevi isso antes? Já, agora que passei pro papel, já posso enxergar o que penso e assim analisá-lo melhor. Então, continuemos. Ultimamente tenho a impressão de que já morri. Uma morte adiada por assim dizer. Ou, como Saramago em Intermitências da Morte, é uma morte suspensa. E quantos mais não estariam vivendo esse estado? Levo uma vida na qual não acredito mais. A ilusão envolve tudo e de forma maciça, como nunca havia sentido antes e já não acredito mais em muita coisa. Numa realidade dominada por empresas que se acotovelam cada vez mais por um número limitado de recursos e de mercado, não há como crer que ainda existam pessoas que acham que a Empresa X ou Y realmente pensem em seus “clientes”. Elas tentam sobreviver. Desesperadamente. “Você é um radical”, “você quer ver o colapso do mundo” é o que muitos vão pensar. É claro que a Empresa X pensa em mim. Se pensa assim, não importa de que forma chegou a este texto, sugiro que não leia mais. Práticas como Responsabilidade Social Empresarial e Responsabilidade Ambiental são só mais dois produtos que o marketing quer vender. E vender caro. Alguns clientes optam por pagar preços maiores, tarifas mais altas, reduzir benefícios em troca da imagem de bonzinho. Tentam expiar a sua culpa de nada fazer por meio de patrocínio a empresas que dizem fazê-lo. Isso tudo sem precisar levantar a bunda gorda do sofá. “Mas é melhor do que não fazer nada”. Quem disse que você precisa fazer alguma coisa? Ou, o que você fez para verificar se a empresa realmente faz o que anuncia? Você já procurou saber o quanto a empresa ganha em isenções fiscais pelos programas que administra? Não se iludam. Nenhuma empresa dará algo gratuitamente. Se ela gasta tantos milhões com “programas sociais”, ela ganha outros tantos milhões com novos clientes, como os que acreditam nelas, ou com incentivos governamentais, além de um ganho em melhoria de imagem.
Vamos a um relato de outra natureza, que ilustra, porém, outra forma de ilusão empresarial em favor do cliente. Recentemente comprei passagens aéreas da TAM pelo site (me recuso a usar “sítio” ou retirar a próclise). Tanta facilidade, até o meu assento eu pude escolher, o 8F, próximo à turbina pra que eu não tenha nenhuma chance de sobreviver a uma explosão. Já sei que sou invulnerável, quase imortal!!! Mas isso é assunto pra outro texto. No dia certo, chego para pegar o vôo. Agora com o novo serviço de facilidade TAM, alguns terminais eletrônicos foram instalados antes do balcão para que o próprio cliente possa, com toda a simplicidade, fazer seu próprio check-in. Por trás disso tudo está o corte de gastos com contratações. Mas, que isso importa? Ficou fácil, não ficou? Você, que tem bagagem pra despachar – infelizmente o tele-transporte ainda não foi inventado pela TAM – vai ter que pegar fila do mesmo jeito. Bom, agora tenho q esperar as antas digitais aprenderem a usar um simples terminal que dá instruções. As pessoas hoje em dia têm preguiça ou não sabem mais seguir instruções. Querem pensar tudo, deduzir como funciona. Chega a minha vez. O terminal coloca à disposição varios tipos de consulta: CPF, e-ticket, Cartão Fidelidade. Vou no CPF que já sei de cor. Digitado o CPF, qual a tela q me segue: “Digite o nº do seu e-ticket”. Duh! Se eu quisesse e-ticket, eu teria escolhido na tela anterior, não? Reviro a mochila e acho o maldito papel. Próxima tela, confirmar o assento... Como assim? E o meu 8F perto da turbina? Havia uma mocinha “engomadinha” para tirar dúvidas quanto ao uso do terminal. Perguntei a ela porque eu teria de escolher novamente meu assento, que se encontrava ocupado. “Ah, o assento é sujeito a alteração...”. Só não esculachei a coitada porque sei que não foi ela que teve essa brilhante idéia. Escolhi meu novo assento e, por pouco, não sofri over-booking – que é outra forma de ser enganado, mas tudo pelo seu bem.
Tem muito mais de onde saiu isso tudo, porém é hora de voltar para a “realidade”. Ainda falta fazer considerações sobre relacionamentos, toda a bullshit que se inventa na administração, políticos, e todo tipo de coisa que me cerca e me engana todos os dias.













